Horticultura, Biodiversidade e Nutrição

10 03 2011

O J. Food Comp. Anal. lançou em 2010 um nº especial sobre este tema, cuja importância se salienta no texto abaixo.

A biodiversidade em plantas, cultivadas ou não e, em particular, em culturas hortícolas é um atributo da natureza em que se baseiam a sustentabilidade, segurança nutricional e, sobretudo, uma alimentação diversificada.

A horticultura contribui para o sustento dos mais pobres, tanto no meio urbano como no rural, e contribui para a sua segurança alimentar e nutricional. Pode contribuir para: o desenvolvimento de cidades mais “verdes” e com melhores capacidades de lidar com problemas sociais e ambientais; a melhoria de bairros degradados; a gestão de resíduos urbanos; a criação de emprego; e o desenvolvimento comunitário. A horticultura urbana e periurbana aumenta a disponibilidade de produtos frescos e nutritivos durante todo o ano e simultaneamente melhora o acesso das populações urbanas mais pobres a alimentos.

Sendo a horticultura uma actividade de mão-de-obra intensiva e com uma cadeia de mercado longa e complexa, permite a criação de emprego, frequentemente para emigrantes de zonas rurais, nos vários sectores dessa cadeia de actividade. Nas periferias urbanas e outras áreas que disponham de terra com características adequadas, a horticultura permite a implementação de programas de desenvolvimento económico local.

A horticultura em zonas urbanas e periurbanas permite transformar resíduos em recursos produtivos, sendo exemplos as práticas de diversas cidades, que reciclam resíduos orgânicos, os quais são depois fornecidos, sob a forma de composto, às populações. Também as águas residuais domésticas, se convenientemente tratadas, podem ser usadas na horticultura, pois fornecem a maioria dos nutrientes necessários. Este tipo de horticultura permite uma economia de combustível, redução de emissões de CO2 e de poluentes ambientais, devido à redução da necessidade de transportar, embalar e manusear alimentos de zonas rurais distantes para as cidades.

Um conhecido exemplo de vantagens da horticultura urbana e periurbana é o cultivo de hortícolas em telhados no Cairo, o que permite que esses edifícios sejam 7 ºC mais frescos que aqueles em que não se verifica tal prática (FAO, 2010).

Existe uma forte ligação entre os domínios da agricultura, saúde e ambiente e, nesse contexto, a horticultura, a biodiversidade e a nutrição constituem a base de uma dieta sustentável para as actuais e futuras gerações.

O acesso a uma alimentação nutritiva é um elemento essencial à segurança alimentar. Os alimentos hortícolas são importantes na alimentação diária e fazem parte das fontes naturais mais ricas em micronutrientes, fibras alimentares, proteínas vegetais e outros componentes bioactivos. No entanto, nos países em vias de desenvolvimento, o consumo diário de frutas e legumes não ultrapassa 20 a 50% das recomendações da Organização Mundial da Saúde. A dose diária recomendada é de 400 g, o que permitirá prevenir doenças cardíacas, cancros, diabetes e obesidade. Essa quantidade também deverá impedir a morbilidade (defeitos de nascença, deficiências físicas e mentais, enfraquecimento do sistema imunitário, …) e mortalidade causadas por deficiências em micronutrientes.

A nível ambiental, o conhecimento da composição em nutrientes e substâncias bioactivas ajuda a valorizar espécies negligenciadas, encorajando uma utilização sustentável. A FAO indica que o objectivo de aumentar a produção mundial de alimentos deve estar em equilíbrio com a necessidade de proteger a biodiversidade, os ecossistemas, os alimentos e as práticas agrícolas tradicionais (FAO, 2008). Promover a diversificação de culturas, em horticultura, significa explorar e usar a biodiversidade para produzir uma larga gama de espécies e variedades e produzir um pouco de cada cultura adequada à alimentação, de forma a conseguir um equilíbrio nutricional para os segmentos pobres nos meios urbanos e rurais, mas também para a restante população. A nutrição e a biodiversidade relacionam-se ao nível dos ecossistemas, das espécies que vivem nesses ecossistemas e na diversidade genética em cada espécie. Cada um destes níveis contribui para uma maior segurança alimentar e uma melhoria nutricional.

Se a análise nutricional e a disseminação de informação, relativas aos vários tipos de espécies e variedades usadas na alimentação, forem feitas de um modo sistemático, os sistemas de informação sobre alimentos e agricultura serão enriquecidos e poderão ser usados como base para o estabelecimento de prioridades e definição de políticas alimentares. Ao nível da nutrição, isto significa a introdução de mais dados sobre composição de alimentos em tabelas e bases de dados; o desenvolvimento e utilização de instrumentos de avaliação nutricional capazes de ter em conta a ingestão alimentar ao nível da espécie e da variedade/raça; e a possibilidade de usar rótulos que realcem o conteúdo nutricional específico, e por vezes único, de produtos hortícolas.

A horticultura, a nutrição e a biodiversidade são essenciais para alcançar dois dos objectivos do milénio das Nações Unidas (UNMDG): reduzir em metade a proporção de pessoas com fome e assegurar a sustentabilidade ambiental.

Os programas que se destinam a implementar estratégias e políticas de segurança alimentar e redução da pobreza, aos níveis escolar e comunitário, poderão estabelecer objectivos relacionados com melhorias nutricionais que tenham em conta a biodiversidade e os recursos geneticamente sustentáveis. Muitas espécies selvagens e pouco utilizadas poderão ser domesticadas e usadas futuramente como alimentos convencionais, capazes de contribuir para uma melhoria nutricional e alimentar.

À medida que o mundo da nutrição aumenta o seu interesse pela área da biodiversidade, dois factos tornam-se mais claros: 1) as diferenças de composição entre variedades podem ser um factor de peso entre suficiência e deficiência em nutrientes; 2) a maioria dos profissionais que trabalham em composição alimentar/nutricional é ou ingénua ou inexperiente, ou apenas negligente, relativamente à taxonomia dos alimentos.

 


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