Utilização de metabolitos alimentares na gestão do peso

12 07 2012

Uma proporção substancial da população mundial sofre de excesso de peso. Este facto traduz-se em diversos problemas de saúde (hipertensão, doenças cardíacas, AVCs, diabetes, apneia do sono, doenças da vesícula biliar, osteoartrite e alguns cancros) e no dispêndio de elevadas somas para a sua prevenção e tratamento. Estes efeitos negativos parecem ser mais salientes nas populações mais jovens (1).
Os tratamentos utilizados incluem dietas, exercício físico, alterações de comportamento, cirurgia e intervenção farmacológica, sendo frequentes diversas combinações destes.
A obesidade pode ser dividida em duas categorias, visceral e subcutânea, de acordo com a zona de deposição da gordura. A obesidade visceral é a que apresenta maior risco de morbilidade e mortalidade (2).
Os tratamentos farmacológicos passam, essencialmente, por cinco estratégias (2):
1) redução da absorção de alimentos, por amplificação dos factores de supressão ou por bloqueio dos factores de estímulo;
2) bloqueio da absorção de nutrientes (sobretudo gordura) no sistema digestivo;
3) aumento da produção de calor pelo corpo (termogénese), dissipando a energia dos alimentos sob a forma de calor;
4) modulação do metabolismo ou acumulação de gorduras, por regulação da sua síntese (lipogénese), degradação (lipólise), diferenciação celular (adipogénese) e/ou morte celular (apoptose);
5) modulação do controlo central que regula o peso corporal.
Para muitos doentes obesos, o tratamento farmacológico deverá implicar o uso crónico de mais que um medicamento, o que poderá traduzir-se num maior risco de exposição aos seus efeitos secundários.
A massa de tecido adiposo reflecte o número e volume dos adipócitos (células especializadas na síntese e armazenamento de gordura). Os triacilgliceróis produzidos como resultado da relação entre lipólise e lipogénese, contribuem fortemente para o volume dos adipócitos. Quer a lipólise quer a lipogénese são reguladas por diversos factores.
Considera-se que é preferível a utilização de substâncias que reduzam os depósitos de gordura que aquelas que reduzam o apetite ou a vontade de comer, pois estas últimas actuam, em geral, a nível do sistema nervoso central e estão relacionadas com efeitos secundários graves (3).
As substâncias capazes de afectar o metabolismo e armazenamento de gorduras tendem a actuar em locais mais periféricos, sendo menos provável a ocorrência de efeitos secundários.
Diversos estudos indicam que extractos vegetais como a cafeína, capsaicina, fitoestrogénios e flavonóides podem ser usados no tratamento da obesidade e outros problemas de saúde com ela associados.
A cafeína é responsável pela activação do sistema nervoso simpático, provocando termogénese e perca de energia sob forma de calor, conduzindo a uma redução de peso (4). Outros estudos indicam que a cafeína provoca um aumento da lipólise e do consumo de oxigénio (5), sendo este também um indicador de redução dos depósitos de gordura.
Os pimentos picantes (género Capsicum) contêm uma substância pungente chamada capsaicina. A ingestão deste composto conduz também a um aumento da temperatura corporal e a uma redução de peso (4). No entanto, devido à sua pungência, a capsaicina tem uma utilização limitada no tratamento da obesidade.
Algumas variedades de pimentos contêm derivados não pungentes da capsaicina, que também apresentam capacidade de estimular o metabolismo de gorduras (6). No entanto, estes compostos estão presentes em muito pequenas quantidades, sendo difíceis de isolar.
A ginesteína é uma das isoflavonas, capazes de interagir com os receptores do estrogénio, mais abundantes nos alimentos. A soja, as lentilhas e cereais como milho, trigo e cevada são ricos neste composto. Há indicações de que o consumo de ginesteína está associado a uma redução de peso (7) e à estimulação da lipólise (8).
Os flavonóides constituem uma família de compostos encontrados na maioria das plantas e em alimentos como o vinho e o chá, cujas propriedades antioxidantes são bem conhecidas, apresentando também outras propriedades biológicas (9). A sua aplicação na redução da obesidade está ainda pouco estudada, mas existem indicações de que possuem actividade de inibição da lipase pancreática, o que resulta na redução da absorção de ácidos gordos (10).
O chá verde exibe um efeito termogénico superior ao obtido com uma dose equivalente de cafeína (11), pelo que se pensa que também os flavanóis existentes no chá contribuam para esse efeito.
Alguns trabalhos descrevem efeitos semelhante aos da insulina, com extractos polifenólicos obtidos a partir de plantas (12). Estes extractos inibem a actividade da α-glucosidase intestinal, com eficácia semelhante à de compostos sintéticos usados no tratamento da diabetes tipo 2, sendo os mais eficazes as antocianinas diaciladas (13). Os mesmos extractos inibem a actividade da α-amilase, aumentando a potencial acção sinérgica sobre os níveis de glucose. No entanto, há indicações de que a inibição da α-glucosidase e da α-amilase são causadas por diferentes componentes dos extractos (14).
É provável que estes compostos tenham efeitos sinérgicos na redução de peso. Cite-se, a título de exemplo, um estudo em que se verificou uma significativa perca de peso, com ingestão de capsaicina, flavanóis, tirosina e cafeína (15).

Bibliografia
1. Fontaine, K. R.; Redden, D. T.; Wang, C.; Westfall, A. O.; Allison, D. B. Years of life lost due to obesity. JAMA 2003, 28, 187-193.
2. Bray, G. A.; Tartaglia, L. A. Medicinal strategies in the treatment of obesity. Nature 2000, 404, 672-677.
3. Carek, P. J.; Dickerson, L. M. Current concepts in the pharmacological management of obesity. Drugs 1999, 57, 883-904.
4. Diepvens, K.; Westerterp, K. R.; Westerterp-Plantenga, M. S. Obesity and thermogenesis related to the consumption of caffeine, ephedrine, capsaicin, and green tea. Am. J. Physiol. Regul. Integr. Comp. Physiol. 2007, 292, R77-R85.
5. Olcina, G.; Munoz, D.; Kemp, J.; Timon, R.; Maynar, J.; Caballero, M. J.; Maynar, M. Total plasma fatty acid responses to maximal incremental exercise after caffeine ingestion. J. Exerc. Sci. Fit. 2012, 10, 33-37.
6. Ohnuki, K.; Niwa, S.; Maeda, S.; Inoue, N.; Yazawa, S.; Fushiki, N. CH-19 sweet, a non-pungent cultivar of red pepper, increases body temperature and oxygen consumption in humans. Biosci. Biotechnol. Biochem. 2001, 65, 2033-2036.
7. Goodman-Gruen, D.; Kritz-Silverstein, D. Usual dietary isoflavone intake and body fat composition in postmenopausal women. Menopause 2003, 10, 427-432.
8. Harmon, A. W.; Harp, J. B. Differential effects of flavonoids on 3T3-L1 adipogenesis and lipolysis. Am. J. Physiol. Cell. Physiol. 2001, 280, C807-C813.
9. Nijveldt, R. J.; Nood, E. v.; Hoorn, D. E. v.; Boelens, P. G.; Norren, K. v.; Leeuwen, P. A. v. Flavonoids: a review of probable mechanisms of action and potential applications. Am. J. Clin. Nutr. 2001, 74, 418-425.
10. Sergent, T.; Vanderstraeten, J.; Winand, J.; Beguin, P.; Schneider, Y.-J. Phenolic compounds and plant extracts as potential natural anti-obesity substances. Food Chem. 2012, 135, 68-73.
11. Dulloo, A. G.; Duret, C.; Rohrer, D.; Girardier, L.; Mensi, N.; Fathi, M.; Chantre, P.; Vandermander, J. Efficacy of a green tea extract rich in catechin-polyphenols and caffeine in increasing 24-h energy expenditure and fat oxidation in humans. Am. J. Clin. Nutr. 1999, 70, 1040-1045.
12. Broadhurst, C. L.; Polansky, M. M.; Anderson, R. A. Insulin-like activity of culinary and medicinal plant aqueous extracts in vitro. J. Agric. Food Chem. 2000, 48, 849-852.
13. Matsui, T.; Ueda, T.; Oki, T.; Sugita, K.; Terahara, N.; Matsumoto, K. α-glucosidase inhibitory action of natural acylated anthocyanins. 2. α-glucosidase inhibition by isolated acylated anthocyanins. J. Agric. Food Chem. 2001, 50, 1952-1956.
14. McDougall, G. J.; Shpiro, F.; Dobson, P.; Smith, P.; Blake, A.; Stewart, D. Different polyphenolic components of soft fruits inhibit α-amylase and α-glucosidase. J. Agric. Food Chem. 2005, 53, 2760-2766.
15. Belza, A.; Frandsen, E.; Kondrup, J. Body fat loss achieved by stimulation of thermogenesis by a combination of bioactive food ingredients. A placebo-controlled, double-blind 8-week intervention o0n obese subjects. Int. J. Obesity 2007, 31, 121-130.


Ações

Information

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s




%d bloggers like this: