Betalaínas e cactos do género Opuntia na alimentação e farmacologia

15 05 2013

As betalaínas são pigmentos naturais, hidrossolúveis, encontrados nos vacúolos de plantas da ordem das Caryophillales (cactos, amarantos, beterraba, …). As estruturas químicas destes compostos são derivadas do ácido betalâmico, dividindo-se em dois grandes grupos: as betacianinas, de cor avermelhada e as betaxantinas com tonalidades de amarelo (Fig. 1).bets

Fig. 1 – Estruturas químicas das betalaínas.

Como os corantes alimentares sintéticos têm vindo a ser preteridos pelos consumidores, a utilização de corantes de origem natural tem adquirido maior relevo. Os corantes vermelhos extraídos da beterraba (Beta vulgaris L.) podem ser legalmente utilizados em alimentos, sem necessidade de certificação, tanto nos E.U.A. como na U.E. (E-162). No entanto, a sua estabilidade é afectada por parâmetros físico-químicos (temperatura, pH, oxigénio, luz e actividade da água) e a sua utilização é prejudicada pelas suas características sensoriais.
Tendo em conta estas limitações, tem sido dada mais atenção a fontes alternativas para este tipo de pigmentos, nomeadamente o género Amaranthus e a família Cactaceae.
Entre as Cactaceae podem distinguir-se os cactos do género Opuntia como das mais prometedoras fontes de pigmentos alimentares, quer pelas suas propriedades corantes e sensoriais, quer pelos seus alegados benefícios para a saúde humana.
Os frutos das diversas espécies de Opuntia exibem cores que variam do verde ao púrpura, passando por tons de amarelo, laranja e vermelho, podendo apresentar-se com ou sem espinhos, dependendo da espécie e variedade. Estes frutos não demonstram qualquer toxicidade e os seus pigmentos não provocam reacções alérgicas. Simultaneamente, as plantas têm reduzidas necessidades de solo e água para o seu desenvolvimento, podendo ser cultivadas em locais áridos e semi-áridos (1). Existem diversas espécies e variedades de Opuntia, caracterizadas por várias formas de planta, cladódios (“folhas”) e frutos (Fig. 2).

Opuntia maxima

O. violacea var. macrocentra

O. ficus-indica

 

Fig. 2 – Diversidade de plantas do género Opuntia

Entre os benefícios para a saúde, relacionados com o consumo de frutos de Opuntia, são referidos a melhoria da função das plaquetas, a redução dos lípidos no sangue e do colesterol total, redução do teor de lipoproteínas de baixa densidade (LDL) e de triacilgliceróis e efeitos antioxidantes. Demonstrou-se ainda possuírem actividade antiulcerogénica. Os compostos responsáveis por estes efeitos são o ácido ascórbico, compostos fenólicos e betalaínas (2).
Estudos realizados após ingestão de sumo de beterraba ou de frutos de Opuntia demonstram a biodisponibilidade das betalaínas, sendo absorvidas na grande circulação na sua forma intacta. Foram encontrados compostos na urina que sugerem a existência de vias metabólicas semelhantes às dos flavonóides (3).
As betalaínas são capazes de atravessar as membranas dos glóbulos vermelhos (4) e interagem com macromoléculas biológicas, permitindo ligar-se a membranas biológicas e lipossomas (5).
A capacidade antioxidante das betalaínas está associada à sua estrutura, com uma parte fenólica e um grupo amina (Fig. 1), ambos excelentes dadores de electrões e, por isso, capazes de estabilizar radicais (6). Esta capacidade antioxidante torna-as activas na redução de diversos riscos cardiovasculares (7). Entre as Opuntia, os frutos com maior teor de pigmentos exibem maior capacidade antioxidante, evidenciando uma contribuição das betalaínas superior à do ácido ascórbico, neste particular (1).
Uma betaxantina, indicaxantina, mostrou actividade in vitro contra a β-talassémia (8). Foi ainda identificada actividade antimalárica (9) e hepatoprotecção (10), conferidas por betalaínas, ambas em ratos.
Para além dos frutos, também os cladódios de Opuntia spp. podem ser usados na alimentação humana e animal e em preparações farmacológicas e cosméticas. Possuem teores elevados de carboidratos, proteínas, água e cálcio e menores quantidades de algumas vitaminas e lípidos (11).
A nível farmacológico, são mencionadas propriedades antioxidantes, analgésicas, anti-inflamatórias, antiulcerogénicas, antidiabéticas e anti-hiperlipidémicas relacionadas com extractos de cladódios de diversas espécies de Opuntia (11).

Bibliografia
1. Castellar, R.; Obón, J. M.; Fernández-López, J. A. The isolation and properties of concentrated red-purple betacyanin food colourant from Opuntia stricta fruits. J. Sci. Food Agric. 2006, 86, 122-128.
2. Stintzing, F. C.; Herbach, K. M.; Mosshammer, M. R.; Carle, R.; Yi, W.; Sellappan, S.; Akoh, C. C.; Bunch, R.; Felker, P. Color, betalain pattern, and antioxidant properties of cactus pear (Opuntia spp.) clones. J. Agric. Food Chem. 2005, 53, 442-451.
3. Manach, C.; Williamson, G.; Morand, C.; Scalbert, A.; Rémésy, C. Bioavailability and bioefficacy of polyphenols in humans. I. Review of 97 bioavailability studies. Am. J. Clin. Nutr, 2005, 81, 230S-242S.
4. Tesoriere, L.; Butera, D.; Allegra, M.; Fazzari, M.; Livrea, M. A. Distribution of betalain pigments in red blood cells after consumption of cactus pear fruits and increased resistance of the cells to ex vivo induced oxidative hemolysis in humans. J. Agric. Food Chem. 2005, 53, 1266-1270.
5. Tesoriere, L.; Allegra, M.; Butera, D.; Gentile, C.; Livrea, M. A. Kinetics of the lipoperoxyl radical-scavenging activity of indicaxanthin in solution and unilamellar liposomes. Free Rad. Res. 2007, 41, 226-233.
6. Kanner, J.; Harel, S.; Granit, R. Betalains – a new class of dietary cationized antioxidants. J. Agric. Food Chem. 2001, 49, 5178-5185.
7. Moreno, D. A.; García-Viguera, C.; Gil, J. I.; Gil.Izquierdo, A. Betalains in the era of global agri-food science, technology and nutritional health. Phytochem. Rev. 2008, 7, 261-280.
8. Tesoriere, L.; Allegra, M.; Butera, D.; Gentile, C.; Livrea, M. A. Cytoprotective effects of the antioxidant phytochemical indicaxanthin in β-thalassemia red blood cells. Free Rad. Res. 2006, 40, 753-761.
9. Hilou, A.; Nacoulma, O. G.; Guiguemde, T. R. In vivo antimalarial activities of extracts from Amaranthus spinosus L. and Boerhaavia erecta L. in mice. J. Ethnopharmacol. 2006, 103, 236-240.
10. Galati, E. M.; Mondello, M. R.; Laurian, E. R.; Taviano, M. F.; Galluzzo, M.; Miceli, N. Opuntia ficus indica (L.) mill. fruit juice protects liver from carbon tetrachloride-induced injury. Phytother. Res. 2005, 19, 796-800.
11. Stintzing, F. C.; Carle, R. Cactus stems (Opuntia spp.): a review on their chemistry, technology, and uses. Mol. Nutr. Food Res. 2005, 49, 175-194.


Ações

Information

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s




%d bloggers like this: