Novo regulamento sobre solventes de extracção utilizados no fabrico de géneros alimentícios

4 10 2011

Decreto-Lei nº 103/2011, de 4 de OutubroDL 103_2011

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Alimentos funcionais: mercado e consumidores

2 06 2011

A designação alimento funcional inclui uma variedade de alimentos e componentes alimentares benéficos para a saúde e bem-estar, capazes de reduzir o risco de certas doenças, ou minimizar os efeitos de agentes prejudiciais à saúde.
Existe uma crescente apetência por parte dos consumidores por alimentos que providenciem benefícios para a saúde e bem-estar. Nos países industrializados, o mercado dos alimentos funcionais tem crescido mais rapidamente que o mercado de alimentos e bebidas, visto como um todo1. A disponibilidade deste tipo de alimentos, permite que os consumidores tenham uma atitude positiva relativamente a uma dieta mais saudável.
O recente período recessivo parece ter provocado um aumento do interesse por parte dos consumidores relativamente à sua saúde e bem-estar, reflectido na compra de alimentos funcionais. O crescimento do mercado poderá ser explicado por diversas razões: as necessidades de uma população envelhecida, os custos elevados dos cuidados de saúde, a atenção dada pelos media aos progressos no desenvolvimento de novos alimentos e pela expectativa de um aumento de preço destes produtos2.
No entanto, a escolha dos consumidores parece ser ainda principalmente motivada pelas características sensoriais do produto e, cada vez mais, pelo seu preço3. Tal não impede que alguns estudos tenham mostrado uma atitude positiva e conhecimento por parte dos consumidores relativamente aos alimentos e bebidas com potenciais efeitos benéficos para a saúde. A figura seguinte ilustra um desses estudos, realizado junto da população dos EUA, tendo sido os participantes inquiridos sobre a sua avaliação dos benefícios resultantes do consumo de alimentos funcionais4.

Percepção de efeitos benéficos resultantes do consumo de alimentos funcionais4

Os dados de mercado indicam que os consumidores incluem os alimentos funcionais na sua dieta, mesmo em períodos economicamente mais difíceis. As mudanças nos padrões demográficos, a maior atenção a questões relacionadas com a saúde, o marketing, a investigação científica e a transmissão dos seus resultados aos consumidores desempenharão um papel relevante no crescimento do mercado dos alimentos funcionais5.
É necessário que os profissionais de nutrição estejam convenientemente informados sobre a investigação científica relativa a alimentos funcionais e acompanhem o comportamento dos consumidores relativamente a alimentos benéficos para a saúde, de modo a auxiliar estes últimos nas suas escolhas alimentares.

Referências
1W. A. Roberts, Jr. “Benefiting Beverages”, Prepared Foods, August (2009)
2B. Jones, “No Functional Fad”, Prepared Foods, March (2010)
3W. Verbeke, “Functional Foods: Consumer Willingness to Compromise on Taste for Health?”, Food Qual. Prefer. 17 (2006) 126
4International Food Information Council, “Functional Foods/Foods for Health Consumer Trending Survey” Executive research report (2009)
5W. R. Kapsak, E. B. Rahavi, N. M. Childs, C. White, “Functional Foods: Consumer Attitudes, Perceptions, and Behaviors in a Growing Market”, J. Am. Diet. Assoc. 111 (2011) 804





Propolis como suplemento alimentar

28 04 2011

O propolis é um dos materiais produzidos pelas abelhas (Apis mellifera) a partir de resinas de plantas e cera proveniente das próprias abelhas. É um produto de textura e cor variáveis, aromático e com um sabor resinoso. As abelhas sintetizam-no, aparentemente, como substância protectora, por exemplo para selar fendas e buracos nas colmeias, defendendo-as de parasitas. É frequente prática dos apicultores a criação de fendas nas colmeias como meio de estimular a produção de propolis.
As propriedades bioactivas do propolis são conhecidas desde a antiguidade. Existem relatos da sua utilização no tratamento de feridas e úlceras pelos Egípcios, Gregos e Romanos. Mais tarde, no séc. 17, o propolis fazia parte de farmacopeias oficiais. A sua actividade antibacteriana foi a primeira a merecer uma avaliação científica e uma das principais razões da grande aceitação deste produto na medicina popular de várias zonas do globo e da sua incorporação em diversos produtos de consumo, como alimentos e bebidas, sabonetes e pastas de dentes, entre outros.

Além da resina e cera, o propolis contém compostos voláteis e pequenas quantidades de outras substâncias. A cera é produzida pelas glândulas das abelhas e na sua composição predominam os hidrocarbonetos, ésteres de ácidos gordos e álcoois primários de cadeia longa. Pensa-se que as variações encontradas na sua composição se devem a factores genéticos.
Como as substâncias bioactivas do propolis provêm da resina, o mesmo é dizer que provêm das espécies vegetais a partir das quais é produzida a resina. Embora as abelhas de uma mesma colónia possam visitar diferentes espécies de plantas, parece haver uma clara preferência por apenas uma ou um reduzido número de fontes de resina. Estas resinas contêm compostos fenólicos e terpenóides, sendo raramente encontrados compostos glicosilados. De acordo com os dados disponíveis, estes compostos não sofrem qualquer modificação devida à sua utilização pelas abelhas.
A composição do propolis é muito variada, podendo mesmo encontrar-se diferentes componentes em amostras colhidas em zonas próximas, ou até no mesmo apiário. As diferenças genéticas entre abelhas poderão conduzir a preferências por diferentes plantas, as quais possuem também diferente composição química. Por outro lado, as variações sazonais das espécies vegetais poderão justificar as diferenças sazonais encontradas na composição do propolis. Por exemplo, em Portugal e outras zonas temperadas, a fonte predominante será o choupo. Noutras zonas do planeta existe também uma preferência clara por certas plantas como fontes do propolis produzido, o que permite uma caracterização geográfica de proveniência, a partir do estudo da sua composição química.
As actividades biológicas de diversos compostos isolados do propolis vão desde a citotoxicidade e acção anti-bacteriana à possível actividade anti-VIH. A descoberta deste tipo de compostos no propolis tem conduzido a um crescente interesse na investigação da composição de propolis de diversas proveniências, da sua actividade biológica e das plantas que lhes servem de fonte. O conhecimento destas fontes é importante, não só pela caracterização da origem geográfica, mas também como meio de aumentar a produção de propolis e permitir atingir um maior grau de padronização do produto.
Fonte: A. Salatino, C. C. Fernandes-Silva, A. A. Righi, M. L. F. Salatino, Propolis research and the chemistry of plant products. Nat. Prod. Rep., 28 (2011) 925-936. DOI:10.1039/c0np00072h





Compostos fenólicos – antioxidantes e pró-oxidantes

23 03 2011

Os factores oxidativos ambientais estão associados a diversas doenças crónicas como sejam a aterosclerose e cancro. Alguns desses factores encontram-se nos alimentos (ácidos gordos, metais de transição proteínas hémicas, enzimas e espécies reactivas de oxigénio) o que justifica a grande atenção dada à influência da dieta nos danos oxidativos causados aos tecidos biológicos. Os sistemas vivos possuem diversos mecanismos que lhes permitem controlar a acção dos factores oxidativos e diversos componentes da dieta, tanto essenciais como não essenciais, podem auxiliar esses mecanismos de defesa.

Embora existam diversas indicações sobre a actividade antioxidante de componentes alimentares, não existe um consenso sobre os efeitos na saúde da maioria desses compostos, o que pode dever-se a diferenças de metodologia seguida nos diversos trabalhos publicados.

Os compostos fenólicos fazem parte dos componentes não essenciais da alimentação e apresentam bioactividade ligada à sua capacidade de quelatar metais, inibir a enzima lipoxigenase e sequestrar radicais livres. No entanto, estes compostos também exibem actividade pró-oxidante in vitro, ao quelatar metais de modo a manter ou intensificar a sua actividade catalítica ou reduzindo metais, aumentando a sua capacidade de formar radicais livres a partir de peróxidos.

O pH é um parâmetro determinante na capacidade oxidativa dos compostos fenólicos. Por exemplo, o ácido g-resorcílico exibe actividade antioxidante a pH 5.8 e pró-oxidante a pH 7.4[1]. Este tipo de dados sugere que o pH dos tecidos biológicos pode também influenciar a actividade dos compostos fenólicos.

A actividade dos compostos fenólicos também depende da sua solubilidade. Em óleos, os compostos hidrofílicos são antioxidantes mais eficazes que os hidrofóbicos, enquanto estes últimos apresentam maior eficácia em óleos emulsificados[2],[3]. Esta observação é justificada pela capacidade dos compostos hidrofílicos se concentrarem na interface óleo-ar dos óleos não emulsificados, onde predominam os fenómenos de oxidação, enquanto que nas emulsões os compostos hidrofóbicos se concentram na fase lipídica e os hidrofílicos particionam em ambas as fases. A partição lipídica afecta de modo semelhante a actividade antioxidante dos compostos fenólicos nos fosfolípidos das membranas celulares[4],[5],[6].

Outro factor que afecta a eficácia antioxidante é o tipo e a solubilidade do catalisador utilizado, pois quando se utilizam catalisadores de oxidação hidrossolúveis, os antioxidantes hidrofílicos são geralmente mais eficazes que os hidrofóbicos.[7]

Sabendo-se que os tecidos biológicos contêm diferentes tipos de lípidos e exibem diferenças de pH, concentração de O2 e de catalisadores de oxidações, é difícil encontrar um modelo experimental que permita avaliar os efeitos dos antioxidantes na saúde. Acresce que na determinação da actividade antioxidante deverão ser ainda tidos em conta os efeitos de solubilidade, biodisponibilidade e retenção tecidular.

É também importante que os resultados de estudos sobre a actividade de um antioxidante sobre um dado sistema (LDL, por exemplo), não sejam alargados a outros sistemas biológicos, com lípidos e catalisadores de oxidação diferentes. De modo semelhante, não devem ser usados resultados de ensaios de componentes alimentares em modelos simples como demonstração do potencial antioxidante de um dado alimento.

Existem fortes evidências dos benefícios para a saúde resultantes do consumo de alimentos contendo compostos fenólicos; no entanto, não são ainda bem conhecidas as relações entre a sua bioactividade e as suas propriedades antioxidantes. O facto de estes compostos poderem agir como antioxidantes ou pró-oxidantes, dependendo das condições, indica que o seu consumo, na forma de suplementos alimentares ou mesmo em alguns alimentos, pode não ser prudente até existir um conhecimento mais aprofundado sobre os mesmos.*


Bibliografia

[1] J. F. Morgan, R. V. Klucas, R. J. Grayer, J. Abian, M. Becana, Complexes of iron with phenolic compounds from soybean nodules and other legume tissues: prooxidant and antioxidant properties. Free Radic. Biol. Med., 22 (1997) 861-870.

[2] W. L. Porter, Paradoxical behavior of antioxidants in food and biological systems. In: G. M. William, ed. Antioxidants: chemical, physiological, nutritional and toxicological aspects. Princeton Scientific, Princeton, NJ, USA (1993) 93-122.

[3] J. Viskuoicova, M. Danihelova, M. Ondrejovic, T. Liptaj, E. Sturdik, Lipophilic rutin derivatives for antioxidant protection on oil-based foods. Food Chem., 123 (2010) 45-50.

[4] A. Saija, M. Scalese, M. Lanza, D. Marzullo, F. Bonina, F. Castelli, Flavonoids as antioxidant agents: importance of their interaction with biomembranes. Free Radic. Biol. Med., 19 (1995) 481-486.

[5] F. M. F. Roleira, C. Siquet, E. Orrù, E. M. Garrido, J. Garrido, N. Milhazes, G. Podda, F. Paiva-Martins, S. Reis, R. A. Carvalho, E. J. T. Silva, F. Borges, Lipophilic phenolic antioxidants: correlation between antioxidant profile, partition coefficients and redox properties. Bioorg. Med. Chem., 18 (2010) 5816-5825.

[6] L. Pérez-Fons, M. T. Garzón, V. Micol, Relationship between the antioxidant capacity and effect of rosemary (Rosmarinus officinalis L.) polyphenols on membrane phospholipid order. J. Agric. Food Chem., 58 (2010) 161-171.

[7] J. A. Vinson, Y. A. Dabbagh, M. M. Serry, J. Jang, Plant flavonoids, especially tea flavonols, are powerful antioxidants using an in vitro oxidation model for heart disease. J. Agric. Food Chem., 43 (1995) 2800-2802.

Leitura recomendada

*D. Procházková, I. Bousová, N. Wilhelmová, Antioxidant and prooxidant properties of flavonoids. Fitoterapia (2011) doi:10.1016/j.fitote.2011.01.018





Horticultura, Biodiversidade e Nutrição

10 03 2011

O J. Food Comp. Anal. lançou em 2010 um nº especial sobre este tema, cuja importância se salienta no texto abaixo.

A biodiversidade em plantas, cultivadas ou não e, em particular, em culturas hortícolas é um atributo da natureza em que se baseiam a sustentabilidade, segurança nutricional e, sobretudo, uma alimentação diversificada.

A horticultura contribui para o sustento dos mais pobres, tanto no meio urbano como no rural, e contribui para a sua segurança alimentar e nutricional. Pode contribuir para: o desenvolvimento de cidades mais “verdes” e com melhores capacidades de lidar com problemas sociais e ambientais; a melhoria de bairros degradados; a gestão de resíduos urbanos; a criação de emprego; e o desenvolvimento comunitário. A horticultura urbana e periurbana aumenta a disponibilidade de produtos frescos e nutritivos durante todo o ano e simultaneamente melhora o acesso das populações urbanas mais pobres a alimentos.

Sendo a horticultura uma actividade de mão-de-obra intensiva e com uma cadeia de mercado longa e complexa, permite a criação de emprego, frequentemente para emigrantes de zonas rurais, nos vários sectores dessa cadeia de actividade. Nas periferias urbanas e outras áreas que disponham de terra com características adequadas, a horticultura permite a implementação de programas de desenvolvimento económico local.

A horticultura em zonas urbanas e periurbanas permite transformar resíduos em recursos produtivos, sendo exemplos as práticas de diversas cidades, que reciclam resíduos orgânicos, os quais são depois fornecidos, sob a forma de composto, às populações. Também as águas residuais domésticas, se convenientemente tratadas, podem ser usadas na horticultura, pois fornecem a maioria dos nutrientes necessários. Este tipo de horticultura permite uma economia de combustível, redução de emissões de CO2 e de poluentes ambientais, devido à redução da necessidade de transportar, embalar e manusear alimentos de zonas rurais distantes para as cidades.

Um conhecido exemplo de vantagens da horticultura urbana e periurbana é o cultivo de hortícolas em telhados no Cairo, o que permite que esses edifícios sejam 7 ºC mais frescos que aqueles em que não se verifica tal prática (FAO, 2010).

Existe uma forte ligação entre os domínios da agricultura, saúde e ambiente e, nesse contexto, a horticultura, a biodiversidade e a nutrição constituem a base de uma dieta sustentável para as actuais e futuras gerações.

O acesso a uma alimentação nutritiva é um elemento essencial à segurança alimentar. Os alimentos hortícolas são importantes na alimentação diária e fazem parte das fontes naturais mais ricas em micronutrientes, fibras alimentares, proteínas vegetais e outros componentes bioactivos. No entanto, nos países em vias de desenvolvimento, o consumo diário de frutas e legumes não ultrapassa 20 a 50% das recomendações da Organização Mundial da Saúde. A dose diária recomendada é de 400 g, o que permitirá prevenir doenças cardíacas, cancros, diabetes e obesidade. Essa quantidade também deverá impedir a morbilidade (defeitos de nascença, deficiências físicas e mentais, enfraquecimento do sistema imunitário, …) e mortalidade causadas por deficiências em micronutrientes.

A nível ambiental, o conhecimento da composição em nutrientes e substâncias bioactivas ajuda a valorizar espécies negligenciadas, encorajando uma utilização sustentável. A FAO indica que o objectivo de aumentar a produção mundial de alimentos deve estar em equilíbrio com a necessidade de proteger a biodiversidade, os ecossistemas, os alimentos e as práticas agrícolas tradicionais (FAO, 2008). Promover a diversificação de culturas, em horticultura, significa explorar e usar a biodiversidade para produzir uma larga gama de espécies e variedades e produzir um pouco de cada cultura adequada à alimentação, de forma a conseguir um equilíbrio nutricional para os segmentos pobres nos meios urbanos e rurais, mas também para a restante população. A nutrição e a biodiversidade relacionam-se ao nível dos ecossistemas, das espécies que vivem nesses ecossistemas e na diversidade genética em cada espécie. Cada um destes níveis contribui para uma maior segurança alimentar e uma melhoria nutricional.

Se a análise nutricional e a disseminação de informação, relativas aos vários tipos de espécies e variedades usadas na alimentação, forem feitas de um modo sistemático, os sistemas de informação sobre alimentos e agricultura serão enriquecidos e poderão ser usados como base para o estabelecimento de prioridades e definição de políticas alimentares. Ao nível da nutrição, isto significa a introdução de mais dados sobre composição de alimentos em tabelas e bases de dados; o desenvolvimento e utilização de instrumentos de avaliação nutricional capazes de ter em conta a ingestão alimentar ao nível da espécie e da variedade/raça; e a possibilidade de usar rótulos que realcem o conteúdo nutricional específico, e por vezes único, de produtos hortícolas.

A horticultura, a nutrição e a biodiversidade são essenciais para alcançar dois dos objectivos do milénio das Nações Unidas (UNMDG): reduzir em metade a proporção de pessoas com fome e assegurar a sustentabilidade ambiental.

Os programas que se destinam a implementar estratégias e políticas de segurança alimentar e redução da pobreza, aos níveis escolar e comunitário, poderão estabelecer objectivos relacionados com melhorias nutricionais que tenham em conta a biodiversidade e os recursos geneticamente sustentáveis. Muitas espécies selvagens e pouco utilizadas poderão ser domesticadas e usadas futuramente como alimentos convencionais, capazes de contribuir para uma melhoria nutricional e alimentar.

À medida que o mundo da nutrição aumenta o seu interesse pela área da biodiversidade, dois factos tornam-se mais claros: 1) as diferenças de composição entre variedades podem ser um factor de peso entre suficiência e deficiência em nutrientes; 2) a maioria dos profissionais que trabalham em composição alimentar/nutricional é ou ingénua ou inexperiente, ou apenas negligente, relativamente à taxonomia dos alimentos.

 





A química do vegetarianismo

4 03 2011

Existem diferentes formas de vegetarianismo, com inclusão ou exclusão de diversos alimentos. De um modo geral, quando comparadas com uma dieta omnívora, as dietas vegetarianas são mais ricas em fibra, Fe3+, magnésio, ácido fólico, vitaminas C e E, ácidos gordos polinsaturados (AGPI) n-6, fitoquímicos e antioxidantes, mas mais pobres em gordura total, ácidos gordos saturados, colesterol, sódio, zinco, Fe2+, vitaminas A, B12 e D e, em particular, AGPI n-3. O reduzido consumo de gordura total, ácidos gordos saturados e sódio, em conjunto com uma absorção elevada de fibra, fitoquímicos e antioxidantes, por parte dos vegetarianos estão associados com uma redução na tensão arterial e no índice de massa corporal (IMC). Sabe-se que estes factores estão ligados a uma redução no risco de doenças cardiovasculares.

Ferro, zinco, e vitamina B12 são os micronutrientes limitantes quando se avalia o valor nutricional das dietas vegetarianas.

O ferro é um elemento essencial para a formação do sangue. Embora os vegetarianos não tenham maior propensão que os omnívoros para ter deficiência em ferro, demonstram possuir menor concentração de ferritina no soro do que os omnívoros, sendo esta uma indicação de deficiência em ferro. Tal facto é explicado por a maioria do ferro presente nas dietas vegetarianas ser de origem não hémica e se apresentar na forma Fe3+, solúvel ao pH ácido do estômago, mas insolúvel ao pH mais básico do duodeno. O ácido gástrico converte o Fe3+ em Fe2+, quando as reservas do organismo se reduzem. Esta forma liga-se a outros componentes da dieta (ácido ascórbico, açúcares, aminoácidos) facilitando a absorção do ferro. A absorção e a biodisponibilidade do ferro não hémico podem ser inibidas por compostos abundantes nas dietas vegetarianas, como sejam os oxalatos (hortícolas), fitatos (cereais e legumes), taninos (chá e café) e proteína da soja. Já o ferro hémico é absorvido mais eficazmente do que o não hémico e só é marginalmente afectado por componentes da dieta.

O zinco é um micronutriente essencial, componente de mais de 50 enzimas, envolvidas em vias metabólicas de crescimento e reparação celular e funções imunológicas, entre outras. O Zn de origem animal é mais biodisponível que o de origem vegetal, sendo a sua absorção reduzida pela presença de proteínas, fibras insolúveis, fitato e minerais como Fe, Ca e P. No entanto, algumas técnicas de preparação culinária como levedação, maceração e germinação de leguminosas, sementes e cereais podem reduzir a complexação de zinco pelos fitatos e aumentar a sua biodisponibilidade.

Na prática, não se verificam diferenças significativas na absorção de zinco entre vegetarianos e omnívoros.

A vitamina B12 é essencial na síntese de novas células, na formação de sangue, na manutenção do sistema nervoso, entre outras funções. Esta vitamina não está presente em alimentos de origem vegetal; no entanto, as algas poderão conter análogos, que funcionam como fonte de vitamina B12. Os ovolactovegetarianos poderão obtê-la a partir dos ovos e lacticínios e os vegans a partir de algas, algumas plantas e cogumelos comestíveis que poderão ter sido contaminados por bactérias do solo.

Felizmente, o ser humano requer apenas quantidades muito reduzidas de vitamina B12, pois o organismo é capaz de a conservar e reutilizar, sem a destruir, podendo ainda ser obtida a partir de bactérias intestinais. Assim se explica o facto da quase inexistência de casos conhecidos de deficiência em vitamina B12.

A vitamina D é rara em dietas vegetarianas, no entanto os vegetarianos não deverão ter maior tendência para deficiência que os omnívoros, já que o ser humano é capaz de sintetizar a vitamina. Por acção da radiação UV do sol, o colesterol presente no organismo pode ser convertido em vitamina D. 15 minutos de exposição solar diária deverão ser suficientes para indivíduos de pele branca; no entanto, alguns grupos populacionais poderão ter maior dificuldade de exposição, nomeadamente aqueles mais idosos, de pele mais escura ou que vivam em latitudes mais setentrionais.

Relativamente aos macronutrientes, não existem diferenças na absorção de hidratos de carbono entre vegetarianos e omnívoros e uma dieta vegetariana equilibrada pode providenciar todas as proteínas necessárias às necessidades fisiológicas. O mesmo não se pode dizer relativamente às gorduras e ácidos gordos.

O AGPI predominante na dieta Ocidental é o ácido linoleico (18:2n-6), habitualmente encontrado em óleos de oleaginosas. Este ácido gordo está na origem da série de ácidos gordos polinsaturados n-6, podendo ser convertido in vivo em ácidos gordos n-6 de cadeia longa. O ácido a-linolénico (18:3n-3) é menos abundante que o linoleico, mas também está presente em óleos vegetais e é o precursor de AGPI C20 e C22 n-3. Os omnívoros podem obter AGPI C20 e C22 n-3 a partir do ácido a-linolénico presente na dieta ou directamente a partir de ovos, peixe ou produtos animais. Os ovolactovegetarianos podem obter uma pequena quantidade a partir de lacticínios e de ovos. Em contraste, os vegan só os obtêm através de síntese endógena, a partir de 18:3n-3, sendo esta conversão pouco eficaz, devido à b-oxidação.

Em ensaios com humanos, os vegan exibem volumes médios de plaquetas superiores aos dos ovolactovegetarianos e omnívoros. Esta característica constitui um factor de risco para o enfarte agudo do miocárdio e para isquémia cerebral aguda e/ou não aguda. Estas plaquetas de maiores dimensões são mais reactivas; quando activadas, passam da sua forma habitual em disco a uma forma esférica, aumentando de volume, o que conduz a um mais elevado potencial para a formação de um trombo. Os casos mais agudos de doença cardiovascular são causados pela formação de trombos, sendo a agregação plaquetária o primeiro passo desses eventos. Esta agregação está ligada a um consumo reduzido de AGPI n-3, justificando uma tendência acrescida para tromboses em vegans. A agregação plaquetária é promovida pela produção de um composto (tromboxano A2 – TXA2), a qual é estimulada pelo consumo de uma dieta com uma razão AGPI n-6/n-3 elevada, como a existente nas dietas vegetarianas.

Há indicações de que um nível elevado de homocisteína no plasma representa um factor de risco para doença cardiovascular. A homocisteína é um metabolito intermediário no metabolismo de conversão da metionina em cisteína. Níveis dietéticos reduzidos de vitamina B12 e/ou ácido fólico ou vitamina B6 estão na origem de um aumento de homocisteína no plasma. Por este motivo, verificam-se níveis significativamente mais elevados de homocisteína no plasma de vegans ou ovolactovegetarianos que no de omnívoros.

As questões abordadas acima poderão estar associadas a um risco acrescido de tromboses e aterosclerose em vegetarianos, particularmente nos vegan. No entanto, os omnívoros apresentam um conjunto superior de riscos, nomeadamente IMC, razão cintura/anca, tensão arterial, actividade do factor VII de coagulação, ferritina sérica, colesterol total, LDL e triacilgliceróis elevados e ainda razoe elevadas colesterol total/HDL, LDL/HDL e triacilgliceróis/HDL.

Resumidamente, será de sugerir que os vegetarianos, e vegans em particular, beneficiarão de um aumento na ingestão de AGPI n-3 e de vitamina B12, de modo a reduzir o risco de tromboses.

Resumido a partir de:

D. Li, “Chemistry behind vegetarianism”. J. Agric Food Chem., 59 (2011) 777-784 (doi:10.1021/jf103846u)





Estudo indica que consumo de “junk food” por crianças poderá originar uma redução no seu QI

8 02 2011

Um estudo publicado no J. Epidemiol. Community Health (http://jech.bmj.com/content/early/2011/01/21/jech.2010.111955) avalia cerca de 4000 crianças aos 3, 4, 7 e 8.5 anos quanto aos seus hábitos alimentares ecorrelaciona-os com o seu QI medido aos 8.5 anos.

Os autores concluem que uma dieta baseada em alimentos processados estará associada a uma pequena redução no QI, enquanto que uma dieta saudável estará ligada a pequenos aumentos de QI.